Análise: Auê (A Fé Ganhou) - Será?!
- Natan Nunes
- há 5 horas
- 14 min de leitura

Até que ponto uma canção pode vestir a roupagem do louvor a Deus enquanto sussurra, em seus versos e metáforas, os hinos de outros altares?
A música "Auê (A Fé Ganhou)", aparentemente um hino de vitória e acolhimento, serve como um caso paradigmático para esta reflexão. Sob a superfície de seu ritmo contagiante e de sua mensagem de uma "aparente" inclusão, opera-se uma fusão silenciosa — e, por isso, mais perigosa — de cosmovisões.
Na análise de hoje vamos desvendar, à luz das Escrituras, como a obra de Marco Telles, ao incorporar termos e estruturas simbólicas das religiões de matriz africana — da folha que ensina a cair ao "Zé" que entra e à "ciranda da fé" —, não apenas se desvia do padrão do culto racional e exclusivo a Deus revelado em Cristo, mas constrói, inadvertidamente ou não, um altar sincrético onde Jesus divide sua glória com elementos de um panteão espiritual estranho à Palavra, violando o primeiro e maior mandamento e confundindo a noção pura do Evangelho da graça.
A visão do autor
Marco Telles apresentou "Auê (A Fé Ganhou)" como um manifesto de acolhimento radical e celebração da identidade na comunidade da fé. Em suas declarações, ele descreve a música como um "hino de chegada", que nasceu para celebrar a diversidade e a beleza do povo de Deus, especialmente aqueles que, como ele mesmo, sentiram-se por muito tempo deslocados ou julgados em espaços religiosos tradicionais.
O autor afirma que buscou intencionalmente criar uma liturgia da festa que falasse ao coração brasileiro, utilizando elementos da cultura popular e da musicalidade nordestina — incluindo expressões do universo afro-brasileiro — não como sincretismo religioso, mas como reconhecimento de uma herança cultural coletiva e como uma forma de "santificar o comum".
Para Telles, a mensagem central é que a fé vitoriosa ("a fé ganhou") se expressa na dança livre de um povo que, com suas roupas, falhas e birras, é finalmente reconhecido e abraçado no lugar que é seu por direito. A música, portanto, é sua proposta de uma igreja mais inclusiva, dançante e antropofágica, que devora as influências culturais para transformá-las em louvor.
Mas não é bem assim....
Apesar da declaração de intenção do autor em criar um "hino de chegada" e "santificar o comum", uma análise objetiva dos símbolos empregados no clipe e a ambiguidade calculada da letra revelam uma narrativa dissonante.
Elementos visuais como cordões que remetem a guias de Umbanda, o olho grego (um amuleto contra mau-olhado de origem não-cristã) e símbolos astrológicos não são meros adereços culturais, mas carregam significados espirituais específicos e alternativos ao cristianismo bíblico. Quando somados a objetos de devoção popular sincrética, como as fitinhas do Senhor do Bonfim, e a uma letra que ora é ambígua (com "folhas" e "crianças" que podem ser lidas em duas chaves), ora explicitamente anticristã ao inverter a lógica do Evangelho (como ensinar a "cair" por um conhecimento à parte de Cristo), configura-se não um louvor, mas um manifesto sincrético.
Tal composição, ao amalgamar de forma não crítica e celebrativa elementos de sistemas de fé incompatíveis, exige do cristão um discernimento claro: trata-se de uma expressão que, em sua essência simbólica e teológica, não pode e não deve encontrar eco na adoração daqueles que professam a Cristo como o único caminho, verdade e vida.
Analisando o visual apresentado

O cordão de contas coloridas usado pelo cantor no clipe não é um mero acessório estético; trata-se de uma representação clara das guias ou fios-de-conta utilizados nas religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé. Na cosmovisão dessas tradições, cada guia é muito mais que um colar: é um instrumento de identidade e conexão espiritual.
Suas cores e sequências específicas indicam a qual Orixá, Guia ou Entidade a pessoa está consagrada, servindo como um símbolo de proteção, um receptáculo de axé (força vital) e um ponto de ligação física com essa força espiritual. Portanto, usar uma guia é uma declaração pública de vínculo e submissão a um sistema espiritual específico, que opera com uma compreensão da divindade e da interação com o mundo espiritual radicalmente diferente da fé cristã histórica.
Do ponto de vista da fé cristã, fundamentada na Bíblia, o uso de tal símbolo em um contexto de "louvor" ou "adoração" representa uma clara violação do primeiro e grande mandamento: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mateus 22:37). Este amor exclusivo a Deus se expressa, entre outras formas, na rejeição de qualquer objeto ou prática que dispute a lealdade espiritual que pertence somente a Ele.
Assim, um cristão não pode, em boa consciência, portar ou promover símbolos que são, em sua essência, emblemas de consagração a outras entidades. Fazer isso em um contexto musical que se propõe a falar de fé cristã não é "contextualização cultural" ou "apropriação estética", mas um ato de sincretismo direto, que confunde os fundamentos da fé, escandaliza os irmãos mais fracos na fé e, acima de tudo, desonra a Deus ao misturar a adoração que Lhe é devida com símbolos de sistemas espiritualistas que Ele expressamente proíbe.
A mensagem do Evangelho é de reconciliação exclusiva com Deus através de Cristo, não de uma fusão pluralista de caminhos espirituais.

A blusa usada pela cantora no clipe, ostentando símbolos como o olho grego (um antigo amuleto contra o "mau-olhado"), elementos astrológicos (como luas e estrelas) e a palavra "astral", transcende em muito a moda ou uma referência cultural genérica. Estes são símbolos espirituais carregados de significado, que apontam para cosmovisões e práticas expressamente contrárias à fé cristã revelada nas Escrituras.
O olho grego fundamenta-se na crença em uma energia negativa externa (o mau-olhado) que pode ser repelida por um objeto, um conceito que substitui a soberania protetora de Deus por uma superstição animista. Já os símbolos astrológicos e a palavra "astral" estão intrinsecamente ligados à crença de que os corpos celestes influenciam destinos, personalidades e eventos – uma prática conhecida na Bíblia como astrologia ou observação dos astros, que busca guia e revelação em algo criado, e não no Criador.
A Palavra de Deus é incisiva ao condenar tais práticas: "Que dirão, pois, a vocês os que estudam os céus e observam os astros, os que, de lua em lua, lhes anunciam o que lhes há de acontecer? Eis que são como a palha, o fogo os queimará; não poderão livrar-se do poder das chamas" (Isaías 47:13-14a). Da mesma forma, a advertência em Deuteronômio 4:19 é clara: "E, para que não suceda que, elevando os olhos aos céus e vendo o sol, e a lua, e as estrelas, todo este exército de corpos celestes, vos deixeis seduzir, e vos prostreis perante eles, e os sirvais, coisas que o SENHOR, vosso Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus."
Portanto, a exibição desses símbolos em um contexto que se propõe a ser cristão não é uma mera coincidência estética. É a visualização de um sincretismo ativo, que normaliza e incorpora ao "louvor" elementos de sistemas espirituais que a Bíblia identifica como idolatria e feitiçaria. O cristão é chamado a rejeitar tais emblemas, pois nossa proteção, direção e futuro estão exclusivamente nas mãos do Deus vivo, que nos adverte a nos guardarmos dos ídolos (1 João 5:21) e a buscarmos a Sua vontade em Sua Palavra, e não nos presságios dos astros.

O uso das fitas coloridas pelo músico no clipe, que se assemelham às fitas do Senhor do Bonfim, constitui outro ponto crítico de sincretismo que confronta diretamente a fé cristã. Este não é um mero acessório folclórico, mas um objeto carregado de um significado espiritual específico, contrário ao ensinamento bíblico.
Na tradição popular, estas fitas são amuletos nos quais se fazem três nós, cada um representando um pedido ou desejo, com a crença de que estes se realizam quando a fita se rompe naturalmente com o tempo. Em religiões de matriz africana, como a Umbanda, as fitas ganham um significado ainda mais profundo: suas cores são associadas a orixás específicos (como o branco para Oxalá, o azul para Iemanjá, o vermelho para Ogum ou Iansã), e são utilizadas em rituais como elementos de ligação com o plano espiritual, proteção e "amarração" de energias ou intenções. Portanto, ao ostentar estas fitas, o clipe não promove uma mera estética cultural, mas endossa e visualiza práticas de feitiçaria e busca por bênçãos por meios alternativos à graça de Deus revelada em Cristo.
A posição bíblica sobre tal prática é clara e intransigente. O uso de objetos como canais de bênção, proteção ou realização de desejos, desviando a confiança que deve estar exclusivamente em Deus, configura-se como idolatria.
Assim, o gesto aparentemente inocente de usar a fita, dentro do contexto de um suposto louvor cristão, representa na verdade uma grave contradição. É a visualização de uma aliança espiritual sincrética, onde se tenta conciliar a fé no Deus único com a crença em amuletos e poderes espirituais vinculados a outras entidades. Para o cristão convicto, não há neutralidade: ou se confia plenamente no Senhor como único protetor e provedor, ou se recorre a objetos de "proteção", incorrendo no erro que o apóstolo João resume com a advertência: "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos" (1 João 5:21)
Analisando a letra
"Pode entrar, eu ouvi
Alagou o olhar
Quando o lustre tá no chão
Onde os meus estão?
Com a folha, eu aprendi como se deve cair
E agora, com as mãos estendidas
Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar
Com minhas roupas, minhas falhas, minhas brigas
Agora que o Zé entrou e todo mundo viu
E todo mundo olhou, e todo mundo riu
Ninguém se acostumou, mas o céu se abriu
Agora que a fé ganhou e a Maria sambou
Sua saia balançou, alguém se incomodou
Com a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu
Auê, dança na ciranda da fé
Que te abriu (que te abriu) as portas
Auê, solta tua criança até
Explodir em glória
Auê (emolêbamemoê-ê-ê)
Dança na ciranda da fé (emolêbamemoê-ê-ê)
Que te abriu, abriu as portas (abriu as portas)
Auê, solta tua criança até
Explodir em (explodir) glória (emalêbamemoê-ê-ê)"
"Pode entrar, eu ouvi. Alagou o olhar" A passagem "Pode entrar, eu ouvi. Alagou o olhar", que abre a música "Auê (A Fé Ganhou)", é uma das mais significativas para se compreender sua profunda conexão com a liturgia das religiões de matriz africana e seu consequente desvio da fé cristã bíblica.
Analisada fora de contexto, a frase poderia sugerir um mero convite humano ou uma metáfora para acolhimento. No entanto, quando lida à luz da linguagem ritualística dos terreiros de Umbanda e Candomblé, seu significado se transforma. A expressão "Pode entrar" é a fórmula ritualística precisa e autoritativa proferida pelo pai ou mãe-de-santo no ápice da gira. Este não é um convite social, mas uma autorização espiritual dada pelo médium chefe, após os cânticos de "chamada", para que as entidades (orixás, guias ou caboclos) "desçam" e incorporem nos filhos e filhas de santo presentes. O complemento "eu ouvi" reforça essa leitura, indicando que o líder ritualisticamente "escutou" o chamado ou a presença do espírito, sinalizando que o transe e a incorporação estão autorizados a se manifestar.
A sequência, "Alagou o olhar", é a descrição poética e precisa do estado de transe ou incorporação que se segue a essa autorização. O "alagar" descreve a inundação da percepção consciente pela presença espiritual, uma alteração profunda do estado de consciência onde o vislumbre do mundo espiritual "transborda" pelos olhos do médium. É a expressão do momento em que a entidade assume o comando, e o olhar do indivíduo se modifica, tornando-se o olhar do espírito que "entrou".
À luz da Bíblia, esta sequência narrativa não pode ser assimilada ao culto cristão sem grave contradição doutrinária. A prática de ceder consciente e ritualmente o próprio corpo para a entrada de outro espírito é explicitamente condenada pela Escritura, que a classifica como feitiçaria ou espiritismo. O apóstolo Paulo adverte: "Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E não quero que vos torneis associados aos demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios" (1 Coríntios 10:20-21). O ato de dizer "pode entrar" a uma entidade espiritual desconhecida é, na cosmovisão bíblica, um perigoso convite ao "cálice dos demônios", uma abertura para influências espirituais que se opõem a Deus.
"Quando o lustre tá no chão / Onde os meus estão?"
A frase descreve um cenário onde a fonte de luz — o lustre — está no chão. Esta disposição não se limita à estética; ela tem um significado ritualístico profundo em algumas práticas espirituais. Na Umbanda, por exemplo, o chão é entendido como um local sagrado, uma conexão com a energia da Mãe Terra e o ponto de partida para estabelecer uma ligação com o Axé (força vital) dos Orixás e guias espirituais. Tocar o solo ritmicamente é um ato de firmar a cabeça, de reconhecimento e de pedido de licença ao universo espiritual.
Portanto, colocar a iluminação no chão simbolicamente desloca o foco do sagrado de um plano superior e transcendente para o plano terreno e imediato. É a afirmação de que a experiência espiritual é predominantemente alcançada através do contato com a terra e com energias que nela se manifestam, e não através da revelação que desce do alto. Essa postura inverte o princípio fundamental da fé bíblica, que é estabelecer uma ligação com um Deus que está no céu, cuja luz e verdade nos são reveladas de cima para baixo. A pergunta "Onde os meus estão?", que segue essa imagem, sinaliza uma busca por identidade e pertencimento dentro deste novo cenário reconfigurado e invertido.
Este simbolismo entra em conflito frontal com a metáfora ensinada por Jesus para a vida espiritual. Ele declarou: "Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com uma vasilha ou a coloca debaixo da cama; pelo contrário, coloca-a no velador, a fim de que os que entram vejam a luz" (Lucas 8:16). Na continuação do sermão, afirma: "A candeia do corpo são os olhos; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas" (Lucas 11:34).
O ensinamento de Cristo é claro: a verdadeira luz espiritual — seja a verdade revelada, seja a própria consciência iluminada — deve ocupar o lugar mais elevado. Ela deve ser colocada no velador (o lugar mais alto da casa) para iluminar a todos, não escondida no chão. A vida do crente deve ser como uma candeia em um lugar alto, irradiando a luz que recebeu de Deus, que é a fonte de toda luz (Tiago 1:17). O "velador" representa uma posição de testemunho, clareza e orientação divina, que vem de cima.
Portanto, a letra da música não apenas descreve um cenário cultural, mas adota sua lógica espiritual inversa. Enquanto a Palavra ordena que a luz seja erguida no alto para guiar e revelar a verdade que vem de Deus, a letra normaliza e busca significado em uma luz que jaz no chão, associada a uma cosmovisão que busca o sagrado primordialmente nas forças terrenas e em outros espíritos. A aceitação desta inversão simbólica ("o lustre tá no chão") prepara o coração para buscar respostas ("onde os meus estão?") dentro de um sistema que, do ponto de vista cristão, constitui uma "mesa de demônios" (1 Coríntios 10:21), uma comunhão espiritual com forças contrárias a Deus.
"Com a folha, eu aprendi como se deve cair"
A afirmação "Com a folha, eu aprendi como se deve cair" constitui o cerne teológico da música e sua maior divergência em relação ao Evangelho. Esta frase ecoa diretamente o princípio sagrado do Candomblé e da Umbanda: "Kosi ewe, kosi orisa" (sem folha, não há Orixá). Nessa cosmovisão, as folhas (ewe) são portadoras do axé (força vital), sendo meios indispensáveis para acessar o poder dos Orixás. "Aprender com a folha", portanto, não é uma metáfora poética vaga; é declarar que o conhecimento espiritual, a arte de "cair" e se levantar na vida, é adquirido através do domínio das propriedades sagradas da natureza, sob a tutela do Orixá Ossain.
O Evangelho de Jesus Cristo apresenta um caminho radicalmente oposto, que começa não no conhecimento, mas na rendição. A Bíblia ensina que o homem não aprende verdadeiramente a "cair" por meio de um elemento da criação, mas ao reconhecer sua queda espiritual diante de Deus: "Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23). A iniciativa divina não é um complemento ao nosso esforço, mas um resgate impossível de ser conquistado: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (Romanos 5:8). As mãos estendidas na cruz antecedem qualquer "aprendizado" nosso.
Mais do que isso, o convite de Cristo é explicitamente transformador.
Ele não nos aceita para nos deixar "com as mesmas roupas, falhas e brigas". Pelo contrário, Ele oferece uma nova identidade. Aos que creem, é prometida uma nova criação: "Assim que, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (2 Coríntios 5:17). Este processo de santificação implica o abandono das "roupas" velhas do pecado (Efésios 4:22), a confissão e superação das falhas (1 João 1:9), e a substituição das "birras" e contendas pelo fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23).
Deus nos acolhe como estamos, mas por amor, não nos deixa como estamos.
"Zé Entrou"
Na música, a entrada do "Zé" não é casual. A entidade Zé Pelintra (ou Zé Pilintra) é uma das mais conhecidas e populares dos cultos afro-brasileiros, especialmente na Umbanda e no Catimbó .
Originário do Nordeste, é considerado o "chefe da linha dos malandros" e o "patrono dos bares, locais de jogo e sarjetas". Não por acaso, a letra descreve um cenário onde "todo mundo riu" e "ninguém se acostumou", pois Zé Pelintra representa o arquétipo do malandro, daquele que desafia as convenções sociais e morais tradicionais com sua ginga e irreverência .
O "Advogado dos Pobres": Na espiritualidade afro-brasileira, Zé Pelintra é reverenciado como protetor dos desfavorecidos e "Advogado dos Pobres", invocado para ajudar em questões domésticas, negócios, finanças e abertura de caminhos . Sua entrada em cena, portanto, simboliza a chegada de uma força espiritual específica para intervir em favor dos "seus".
"Maria Sambou"
A sequência sobre "Maria" está intrinsecamente ligada à anterior e aprofunda a simbologia. O samba, na cultura afro-brasileira, vai muito além da dança folclórica. Nos terreiros, a dança é parte fundamental do ritual para invocar e manifestar as divindades. Cada Orixá ou entidade tem gestos, movimentos e coreografias específicas que expressam sua energia e natureza . Quando "Maria sambou" e "sua saia balançou", a música descreve visualmente essa manifestação corporal do sagrado, um elemento central nas festas (xirês) de terreiro .
A letra observa que "alguém se incomodou / Com a cor que ela mostrou". Isso pode ser uma alusão dupla: primeiro, ao preconceito histórico contra as religiões afro-brasileiras e suas expressões de fé ; segundo, a entidades femininas do panteão, como as Pombagiras (que podem ser chamadas de "Maria" em seus nomes sincretizados, como Maria Padilha), que desafiadores.
A conclusão de que "o céu coloriu" após a entrada de Zé e o samba de Maria celebra a efetividade do ritual. É a confirmação de que a intervenção espiritual solicitada foi bem-sucedida, trazendo transformação (cor) e abertura de caminhos (o céu se abriu), conforme acreditam os devotos dessas entidades .
A FÉ GANHOU?
A mensagem final da música — "a fé ganhou" — é enganosa para o ouvido cristão, pois celebra a vitória de uma fé cujos fundamentos e protagonistas são espiritualmente incompatíveis com o Evangelho.
"AUÊ"
A passagem central da música "Auê, dança na ciranda da fé / Que te abriu as portas / Auê, solta tua criança até / Explodir em glória" sintetiza e celebra uma experiência espiritual cujos elementos linguísticos e ritualísticos são profundamente enraizados nas religiões de matriz africana, estabelecendo uma visão de fé que diverge fundamentalmente da experiência cristã bíblica.
A palavra "auê", de uso coloquial no português brasileiro com o significado de barulho, agitação ou confusão, ganha na música um peso teológico específico. No contexto das religiões de matriz africana, como a Umbanda, "auê" é uma expressão vocal usada em pontos cantados e rodas, diretamente ligada à exaltação espiritual, chamado coletivo, energia e manifestação de presença espiritual. Não se trata, portanto, de uma mera referência ao barulho festivo, mas de um termo ritual que remete a vibração, movimento e ao ato de convocar e celebrar o sagrado dentro de uma roda.
Os demais elementos deste refrão aprofundam essa conexão com a prática ritual afro-brasileira:
"Ciranda da fé": A ciranda, neste contexto, não é apenas uma dança folclórica. Nas religiões de matriz africana, a "ciranda" ou roda é a forma coletiva e dinâmica de realização do trabalho espiritual. Ela representa a união do grupo, a "gira" (termo usado para a sessão ritual), o movimento energético e a abertura de portais ou trabalhos espirituais. Dançar na "ciranda da fé" é, portanto, participar ativamente de um ritual coletivo que busca abrir caminhos espirituais.
"Solta tua criança até explodir em glória": Esta é possivelmente a expressão de maior densidade simbólica. Nas tradições afro-brasileiras, a "criança" (ou "erê") se refere a um estado de consciência ou uma entidade espiritual infantil que se manifesta durante o transe. "Soltar a criança" é um jargão ritualístico para permitir que esse estado de incorporação ou entrega aconteça plenamente, culminando na "glória" ou no êxtase da manifestação espiritual. A ideia de "explodir" descreve o clímax dessa manifestação.
VEREDITO
Diante dessa análise completa — que examinou a letra, seu vocabulário ritualístico, sua simbologia ("guias", "fitas", "lustre no chão"), sua narrativa de incorporação ("Zé entrou", "soltar a criança") e sua estrutura que espelha um terreiro —, o veredito para o cristão comprometido com a sã doutrina é claro e inevitável: não ouça, não cante, não divulgue essa música, tampouco promova seus compositores.
"Auê (A Fé Ganhou)" não é um hino cristão; é um manifesto sincrético que funde, de forma intencional e habilidosa, a linguagem do Evangelho com a liturgia e os pressupostos teológicos de religiões que veneram outras entidades. Cantá-la é, ainda que inconscientemente, entoar pontos de Umbanda; divulgá-la é normalizar uma grave confusão espiritual que a Bíblia chama de idolatria.
Como povo santo, somos chamados a fugir da aparência do mal (1 Tessalonicenses 5:22), a amar a Deus com entendimento (Romanos 12:2) e a guardar o depósito da fé (1 Timóteo 6:20), recusando qualquer obra que, mesmo sob o manto da arte, torne obscuro o único caminho da salvação que é Jesus Cristo.



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