Notícia Cristã: Fé em meio à crise - a resiliência da Igreja Evangélica na Venezuela
- Natan Nunes
- 3 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de jan.

Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro de 2026, um estrondo na capital Caracas, seguido por múltiplas explosões e o som de aeronaves sobrevoando a cidade, anunciou uma virada histórica não apenas para a política da Venezuela, mas também para o seu intricado cenário religioso. Em uma operação militar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, que foi retirado do país para responder a acusações de narcoterrorismo em solo americano.
Este evento, que a vice-presidente Delcy Rodríguez classificou como "o pior ataque" à soberania nacional, rasgou de forma abrupta o tecido político do país, lançando uma sombra de incerteza sobre todas as instituições nacionais.
Enquanto a comunidade internacional se divide entre condenações da Rússia e Irã e celebrações de aliados como a Argentina, a atenção se volta para o futuro imediato da nação. No vácuo de poder, surge uma pergunta urgente: como reagirá uma das forças sociais mais dinâmicas e crescentes da Venezuela, a comunidade evangélica, cuja história recente foi meticulosamente entrelaçada com o regime de Maduro?
Nos últimos anos, Maduro executou uma estratégia calculada para cooptar o apoio evangélico, criando programas como o "Bônus do Bom Pastor" e "Minha Igreja Bem Equipada", que transferiam recursos diretamente a pastores e financiavam reformas de templos. Este movimento fez parte de uma tradição chavista de conceder privilégios a igrejas pentecostais, muitas vezes em detrimento da Igreja Católica, em uma estratégia para construir novas bases de apoio político. O resultado foi um crescimento fenomenal: a população evangélica, que era de apenas 2.1% em 2010, saltou para 30.9%, tornando-se uma minoria significativa.
Agora, com o arquiteto dessa política removido do poder de forma violenta e o país em estado de emergência, a aliança tática entre o palácio e o púlpito enfrenta seu teste definitivo. A prisão de Maduro pelos EUA não é apenas um ponto de virada geopolítico; é o catalisador que expõe as tensões, os compromissos e o futuro incerto da fé evangélica venezuelana, forçando-a a redefinir seu papel em uma nação repentinamente desprovida de seu líder.
Raízes históricas e crescimento
A presença evangélica na Venezuela remonta ao final do século XIX, com os primeiros missionários estabelecendo as bases de um movimento que se expandiria significativamente ao longo do século seguinte.
· Os pioneiros (1878-1906): Os primeiros esforços protestantes documentados começaram com metodistas em 1878. A chegada de missionários escandinavos em 1906 marcou um ponto crucial, com a fundação da Igreja Evangélica do Salvador em Maracaibo - a primeira igreja evangélica no ocidente venezuelano.
· Consolidação e expansão: Durante o século XX, diferentes missões protestantes se estabeleceram por regiões, criando uma diversidade denominacional que inclui assembleias de Deus, batistas, presbiterianos e outros grupos. Em 1972, formou-se o Conselho Evangélico da Venezuela (CEV), dando representação nacional às igrejas evangélicas.
A realidade atual: entre a perseguição e a ação social
Atualmente, a comunidade evangélica venezuelana enfrenta um cenário duplamente desafiador: de um lado, a pressão de um governo autoritário; de outro, a necessidade de responder à profunda crise humanitária que aflige o país.
De acordo com relatórios sobre liberdade religiosa, o regime venezuelano não tolera críticas ou oposição, colocando líderes religiosos em risco quando denunciam violações de direitos humanos ou se envolvem em trabalho humanitário independente. O governo emprega uma estratégia de dividir a igreja entre líderes leais ao regime e líderes críticos, usando o acesso a recursos básicos como alimento e medicamentos como mecanismo de controle.
Divisões e estratégias de sobrevivência
Perante a pressão governamental, a comunidade evangélica não apresenta uma frente unificada. Observam-se pelo menos três posturas distintas:
1. Resistência e crítica profética
Um segmento mantém postura crítica, defendendo direitos humanos e democracia, mesmo sob risco de represálias. Esses líderes e igrejas frequentemente enfrentam maiores obstáculos em seu trabalho.
2. Colaboracionismo tático
Alguns líderes mostram abertamente lealdade ao regime - às vezes sob ameaça de represálias - em troca de permissão para operar ou acesso a recursos. Esta estratégia de sobrevivência gera tensões no corpo eclesial.
3. Foco no trabalho humanitário
Muitas igrejas concentram-se em ação social sem confrontação política direta, cuidando dos mais vulneráveis enquanto evitam linguagem que possa ser interpretada como oposicionista.
O futuro desafiador
Analistas preveem que a perseguição pode intensificar-se em 2026, seguindo padrões observados em países como Nicarágua, onde regimes semelhantes aumentaram sistematicamente a pressão sobre instituições religiosas independentes. Especialistas alertam que quando ditaduras identificam um poder de fato que não apoia suas políticas, "começam a atacá-lo até que desapareça".
Principais Denominações e Presença Brasileira
O campo evangélico venezuelano é diversificado. Embora o censo detalhado seja escasso, as principais correntes são:
1. Pentecostais (maioria):
· Assembleias de Deus: Constituem um dos grupos mais comuns e tradicionais, com forte presença, inclusive na região amazônica.
· Igreja Universal do Reino de Deus (IURD): A denominação brasileira, fundada pelo bispo Edir Macedo, ganhou espaço significativo. Seu representante local, o bispo Ronaldo Santos, participou publicamente de cultos ao lado de Maduro, demonstrando um alinhamento que contrasta com a postura da igreja no Brasil.
2. Tradicionais/Históricas:
· Igrejas Batistas (muitas vezes críticas ao regime), Presbiterianas e outras. Estas costumam ser mais reservadas quanto ao governo.
3. Movimentos Chavistas:
· Movimento Cristão Evangélico pela Venezuela (Mocev): Atua como um braço político do chavismo dentro da comunidade evangélica. Seu presidente, o deputado Moisés García, é uma figura pública próxima a Maduro. O Mocev afirma congregar milhares de pastores e igrejas.
Um pastor anônimo entrevistado pela Portas Abertas relatou que igrejas que não aderem aos programas governamentais enfrentam dificuldades burocráticas deliberadas para obter autorizações de funcionamento. Essa pressão cria um ambiente onde aceitar os benefícios pode ser uma questão de sobrevivência institucional, e não de apoio genuíno.
A Encenação de Apoio Unânime
Eventos como o "Encontro com Pastores Cristãos" em março, transmitidos pela TV estatal, buscam projetar uma imagem de apoio maciço e unânime da comunidade evangélica a Maduro. No entanto, análises sugerem que apenas uma minoria (estimada entre 25% e 30%) o apoia ativamente. A grande maioria mantém uma postura de cautela ou oposição silenciosa, temendo as consequências.
Fé Instrumentalizada em Tempos de Crise
A realidade da igreja evangélica na Venezuela é um microcosmo da tragédia nacional. Seu crescimento explosivo é alimentado pelo mesmo desespero que aflige o país. Por outro lado, o governo Maduro, em busca de um novo pilar de sustentação popular, transformou essa fé em moeda de troca política através do "Bônus do Bom Pastor" e programas similares.
Essa aliança, no entanto, é frágil e coercitiva. Longe de ser uma união espiritual, é uma relação de conveniência e controle, onde o Estado troca recursos escassos por lealdade política e silencia vozes dissidentes. O futuro dessa relação está intrinsecamente ligado à evolução da crise política e econômica. Caso a pressão sobre o regime aumente, é provável que a instrumentalização da religião se intensifique, assim como a perseguição àqueles que, na fé, ousam resistir.
Em última análise, o exemplo venezuelano demonstra, de forma contundente, como ideologias políticas totalitárias, de caráter comunista ou de qualquer outra matriz que busque o controle absoluto do Estado sobre a sociedade, são intrinsecamente tóxicas para a Igreja Cristã.
A fé cristã, cujo núcleo reside na liberdade do indivíduo para buscar Deus, na transcendência da autoridade divina sobre qualquer poder temporal e na missão profética de denunciar a injustiça, não pode subsistir sob um regime que exige lealdade exclusiva, instrumentaliza as instituições para seu próprio projeto de poder e persegue aqueles que ousam colocar o Reino de Deus acima das ideologias terrestres.
O caso venezuelano não é um mero conflito político, mas um choque de soberanias: entre uma ideologia que pretende redimir o homem através do controle do Estado e uma fé que proclama a redenção pela graça, através de uma comunidade livre e servidora. A história, mais uma vez, atesta que quando o altar é forçado a curvar-se diante do trono, perde-se não apenas a liberdade da Igreja, mas também a sua alma.






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