Notícia! Enfermeiras cristãs foram inocentadas de uma acusação de blasfêmia no Paquistão
- Natan Nunes
- há 5 dias
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"Um caso representa um novo e importante desenvolvimento porque o próprio tribunal de primeira instância rejeitou as acusações com base em provas", declarou o padre Khalid Rashid Asi, diretor da Comissão Nacional para Justiça e Paz, após a absolvição de duas enfermeiras cristãs acusadas de blasfêmia no Paquistão.
A absolvição de duas enfermeiras cristãs no Paquistão em novembro de 2025 não é apenas o final de um pesadelo pessoal que durou quatro anos e meio. É um evento raro que ilumina a realidade diária de perseguição, medo e discriminação que define a vida de milhões de cristãos em um país onde a mera acusação pode significar uma sentença de morte social, legal ou literal.
No epicentro dessa história estão Mariam Lal, de 52 anos, e Newosh Arooj, de 19 anos, que trabalhavam no Hospital Civil de Faisalabad. Em abril de 2021, um médico sênior as acusou de terem "profanado" um adesivo contendo uma inscrição islâmica colado em um armário do hospital. Essa acusação, feita sob o artigo 295-B do Código Penal, que prevê prisão perpétua por danificar textos do Alcorão, deflagrou uma sequência de horrores.
O Calendário do Pesadelo
As enfermeiras escaparam por pouco de serem linchadas por uma multidão enfurecida que se formou quando a notícia se espalhou. Presas pelas autoridades, passaram cinco meses em uma cela. Após este período, foram libertadas sob fiança por motivos de segurança, mas o tormento estava longe de terminar.
Durante todo o julgamento, que se arrastou por anos, elas e sua equipe jurídica enfrentaram ameaças constantes de extremistas. O tribunal permitiu que evitassem comparecimentos públicos, citando ameaças críveis às suas vidas. Incapazes de trabalhar, foram forçadas a viver escondidas, aguardando um veredicto que poderia condená-las a passar o resto de seus dias atrás das grades.
A decisão veio em novembro de 2025: um juiz distrital as absolveu, afirmando que o acusador não conseguiu fundamentar a acusação. Com o prazo para recurso expirado em janeiro de 2026, o caso foi finalmente arquivado. Para especialistas, esta absolvição em um tribunal de primeira instância é excepcional. "Os tribunais de primeira instância em casos de blasfêmia muitas vezes relutam em absolver devido à pressão social e riscos de segurança", explicou o padre Khalid Rashid Asi, que coordenou a defesa.
Raízes Profundas: O Cristianismo em Solo Paquistanês
Para entender o peso desta absolvição, é necessário mergulhar na história e no contexto atual dos cristãos no Paquistão.
O cristianismo chegou à região que hoje é o Paquistão no século I, por meio do apóstolo Tomé. Contudo, a comunidade atual formou-se principalmente durante o domínio britânico, no século XIX, com a conversão de grandes grupos de hindus de baixa casta que buscavam escapar do sistema de castas.
Após a independência e a criação do Paquistão em 1947 como um Estado para muçulmanos do subcontinente indiano, a promessa de igualdade de cidadania feita pelo fundador, Muhammad Ali Jinnah, foi rapidamente abandonada. Em 1956, o país se declarou uma República Islâmica, tornando o islã a ideologia de Estado, o que afetou profundamente todas as minorias religiosas.
A situação piorou drasticamente na década de 1980, sob a ditadura do General Zia-ul-Haq, que reforçou e ampliou as leis de blasfêmia, transformando-as na principal ferramenta de perseguição religiosa que conhecemos hoje.
A Realidade da Perseguição Sistêmica
Hoje, os cerca de 3,3 milhões de cristãos (aproximadamente 1,4% da população) são uma minoria profundamente marginalizada. A maioria pertence à antiga casta dos "Dalits" ou "intocáveis" e enfrenta uma discriminação estrutural que os mantém presos na pobreza.
Forma de Perseguição
Leis de Blasfêmia: Usadas para acertar contas pessoais e intimidar minorias. Apenas a acusação pode levar a linchamentos. De 1987 a 2020, pelo menos 1.855 pessoas foram acusadas
Discriminação Sistêmica: Cristãos são considerados "impuros" (chura). Têm acesso negado a água comum, são preteridos em empregos e forçados a trabalhos degradantes, como em olarias ou limpeza de esgotos
Violência e Linchamentos: Acusações frequentemente desencadeiam violência de multidões. Em 2023, um boato em Jaranwala levou à destruição de 26 igrejas e ao deslocamento de milhares de cristãos.
Violência Contra Mulheres: Mulheres e meninas cristãs são altamente vulneráveis a sequestro, violência sexual, casamento forçado e conversão forçada ao islã.
Esta absolvição é um pequeno, mas significativo, sinal de luz. Ela mostra que, mesmo sob intensa pressão, a justiça pode prevalecer. Para os cristãos paquistaneses, é um lembrete de que sua fé e perseverança não são em vão, e para o mundo, é um alerta para não esquecer os milhões que, como Mariam e Newosh, vivem sob a sombra constante de uma acusação.






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